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O ADEUS A ALINE

Jornalista faz crônica para homenagear médica jundiaiense, vítima de câncer

A médica Aline Ladeira vinha da Islândia e, Sandra, da Alemanha. Elas se conheceram no voo com destino em comum: Jundiaí Aline faleceu nesta semana

Postado em 07/06/2021 às 13:15

Aline e família, com o amigo e padre Laerte, na comemoração da última Páscoa; a médica faleceu nesta semana e, nesta crônica, recebeu a homenagem da amiga Sandra (Foto: Arquivo da família)

Por Sandra Mezzalira Gomes - Que esta seria uma viagem especial eu já sabia, afinal, era a primeira da pandemia e as misturas de emoções eram inevitáveis. Tinha comprado a passagem “Economic plus”, na esperança de ter mais espaço durante o longo voo de doze horas que cruza o Atlântico, mas fiquei hiper feliz ao escanear meu tíquete e receber um papel avisando que meu lugar tinha sido trocado para a poltrona 8A, o que significava então a classe executiva.

Ainda estava “digerindo” a minha sorte quando você chegou. Já estávamos quase uma hora atrasados, nada normal para a Lufthansa, e a cadeira do meu lado continuava vazia. Você olhou para a mesma, olhou para o seu bilhete, mas não olhou para mim que estava sorrindo na tentativa de cumprimentá-la.

Já meio sem graça, perguntei em alemão, ainda com um sorriso no rosto, se você precisava de mais espaço no bagageiro superior, no qual já estavam parte das minhas coisas. Novamente você ignorou a minha pergunta e a minha presença.

Com uma expressão séria, tirou comidas prontas da mala de mão e chamou a comissária de bordo. “Que saco, entrou uma mulher esquisita, antipática e arrogante, ela vai sentar do meu lado, ainda bem que as cadeiras são enormes e relativamente longe uma da outra!”, escrevi para dois amigos com quem estava no chat.

Em inglês, ouvi você pedindo pra colocarem sua comida na geladeira e percebi que não gostou da resposta negativa da comissária, que justificou não poder fazer nada principalmente por causa do corona. “Que frescura, trazer a própria comida”, pensei, aumentando a impressão ruim do primeiro momento.

Tentei me distrair checando a programação dos filmes, as várias formas de dobrar a cadeira, o cardápio para o jantar e o café da manhã. Você ajeitou os tupperwares com comidas embaixo da sua cadeira, arrumou as bagagens, sentou e fixou o olhar no celular. Apertamos os cintos e o avião finalmente saiu do solo deixando Frankfurt cada vez menor.

A comissária veio anotar nosso pedido para o jantar, eu falando alemão, você inglês. Um pouco depois, um homem veio até você, sussurrou algo no seu ouvido beijando seu rosto em seguida e voltando para o outro corredor. Mais alguns minutos de voo e você não tirava o olho do celular. Na minha cabeça tentava descobrir de onde você poderia ser e porque parecia tão “fechada”, séria, tensa. Num olhar de canto para seu celular consegui ver que seus olhos estavam fixados em passagens bíblicas, escritas em português!


Aline (de preto) ao lado de Gustavo e filhos celebrando sua última Páscoa com o padre Laerte, amigo da família (Foto: Arquivo da família)


Perceber que era brasileira não melhorou a situação. Ao contrário, comecei a achar que poderia ser do tipo de pessoa que eu lamento a existência, os “metidos a ser melhor que os outros por ter dinheiro”. Mas as peças não se encaixavam, por que então as palavras bíblicas? Quem era o homem e por que não estavam viajando ao lado um do outro? Finalmente, depois de uns 20 minutos de voo, você quebrou o silêncio me perguntando educadamente, em inglês, se eu sabia como funcionava o Wi-Fi.

“Achei que era alemã do jeito que estava falando fluentemente com a comissária”, me disse surpresa ao receber minha resposta em português. Chegou o jantar e enquanto eu me deliciava com um copo de champanhe e um excelente menu, você parecia se contorcer em dor a cada vez que engolia. Perguntei se estava tudo bem e começou a contar um pouco da sua história. Estava com um tumor maligno no estômago há alguns meses. Já tinha morado na Alemanha e no momento estavam morando na Islândia mas por causa da doença tinham decidido buscar tratamento no Brasil.

Mãe de cinco filhos, quatro dos quais estavam no mesmo voo, comprou a classe executiva para ter um pouco de conforto já que a dor era imensa. O marido e os filhos tiveram a mesma sorte que eu e foram “transferidos” da econômica plus para a executiva e primeira classe, inclusive no segundo andar do avião. Tiveram um problema enorme para embarcar (estava explicado o atraso!) e a comida extra era líquida caso ela não conseguisse engolir o que fosse oferecido, como estava infelizmente acontecendo.

Me senti envergonhada, muito envergonhada com os meus pré-julgamentos, e obrigada a pedir desculpas por ter entendido tudo errado. Você nem percebera meu sorriso ou mesmo minha presença no início, estava sim, focada nos importantes detalhes e ainda nervosa de toda a discussão para conseguirem embarcar. “Tenho uma consulta importantíssima amanhã e não podíamos perder o voo”. Ao terminarmos o jantar já sentia uma compaixão e um carinho enorme por você e sua família.

Dormimos com as cadeiras transformadas em cama e, de repente, tive a sensação de estar sendo sacudida para acordar. Abri a persiana e não conseguia acreditar no que estava vendo: ela, linda, reluzente, brilhante e com cauda, sim, a estrela guia, nítida ali no céu...

Emocionadíssima, te acordei já pedindo desculpas mas justificando que não poderia deixar perder esta cena. Ficamos por uns segundos as duas com o nariz grudado na janelinha até ir chamar seu marido e filhos. Acabamos esquecendo as fotos, fiz algumas já no final do rápido e inesquecível espetáculo de uns quinze minutos.

Aquele mágico e arrepiante momento foi para mim a melhor confirmação de que a viagem era abençoada e estava fazendo o certo de visitar meus pais nesta época tão complicada, mesmo com todos os poréns desta decisão. As surpresas, no entanto, ainda não tinham acabado. Começaram a servir o café da manhã e já estávamos sobrevoando o Brasil, cerca de três horas do nosso destino final.

Trocamos telefones para podermos trocar as fotos da estrela e ao continuarmos a conversar, descobrimos que tínhamos o mesmo destino, a cidade de Jundiaí. Mais ainda, descobrimos que conhecia grande parte da minha família, que frequentava a mesma comunidade. Coincidências deste mundinho pequeno.

Tudo isso aconteceu de 20 a 21 de dezembro. Hoje é sete de junho, nem seis meses depois. Trocamos fotos, mensagens e desejos de feliz natal, feliz ano novo e feliz páscoa. Você nunca reclamou de nada. Ao contrário, dizia que estava vivendo um dia de cada vez. Enviou fotos sorrindo, celebrando, rodeada pela família. A última vez que nos “falamos” foi no fim de abril.

Ontem, sábado, acordei e já tive o impulso de acender uma vela. Estava usando o pijama que ganhamos da Lufthansa quando ouvi o recado de que você tinha descansado. O câncer tinha piorado, o tratamento não estava adiantando, o sangramento não parava assim como o seu sofrimento.

Doeu na alma pensar em você sofrendo, nos seus filhos, na sua família... fiquei um tempão paralisada, olhando pros passarinhos e pro céu azulado, deixando as lágrimas pularem dos meus olhos, pensando novamente em tudo que aconteceu quando nos conhecemos.

Perdi a conta de quantas vezes já cruzei o Atlântico nestes vinte anos de Alemanha, ou mesmo de quantos “amigos de voo” já fiz. Sabia no entanto que desta vez não tinha sido por acaso. Que tinham lições a serem aprendidas, emoções a serem vividas.

Desta vez, uma estrela guia precisava ser admirada, observada, avistada, valorizada, compartilhada, ou mesmo, precisava de mais estrelas ao seu redor. Obrigada Aline, por essa valiosíssima e inesquecível jornada. Descanse em paz brilhando agora por aí, no firmamento.

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